Segurança Marítima

O Que É o Cartão de Tripulação de Segurança em Navios — e Para Que Ele Serve

Publicado em 16/06/2026 · Leitura de 6 min

Navio mercante em operação no oceano

Quem está começando a estudar sobre a carreira de aquaviário vai ouvir um nome que parece burocrático mas é mais simples do que parece: o Cartão de Tripulação de Segurança. Também chamado de Muster Card ou Cartão de Mustering.

Todo tripulante de navio recebe um ao embarcar. E entender o que é — antes mesmo de fazer o curso — ajuda a compreender como a segurança a bordo funciona de verdade.

O problema que o cartão resolve

Um navio pode ter 15, 20 ou 30 tripulantes de diferentes funções, experiências e países. Em uma emergência — incêndio, risco de naufrágio, pessoa caída ao mar — cada segundo conta. Não há tempo para alguém explicar o que cada pessoa deve fazer.

O Cartão de Tripulação de Segurança resolve isso. Ele é o documento individual que informa cada tripulante, com antecedência, sobre:

Cada cartão é personalizado: a função de "Moço de Convés" tem responsabilidades diferentes das do "Eletricista" ou do "Cozinheiro" em uma situação de emergência.

Rebocador operando próximo a navio — o tipo de embarcação onde o cartão de segurança é obrigatório
Em toda embarcação mercante como esta, cada tripulante tem funções específicas em emergências — e o cartão garante que cada um saiba a sua.

Por que é obrigatório — e a convenção por trás disso

O Cartão de Tripulação de Segurança não é uma exigência de uma empresa específica. É uma obrigação internacional, prevista na SOLAS — Convenção Internacional para Salvaguarda da Vida Humana no Mar (Safety of Life at Sea), no Capítulo III.

A SOLAS é um tratado internacional ao qual o Brasil é signatário, e que determina os padrões mínimos de segurança para embarcações mercantes. Uma das exigências é exatamente que cada tripulante conheça suas responsabilidades em emergência antes de a embarcação partir.

O cartão é o instrumento prático que garante isso. Mas ele não é suficiente sozinho: a SOLAS também obriga que a tripulação realize exercícios de mustering — simulações de emergência periódicas a bordo, para que cada pessoa pratique o que está descrito no cartão.

O que está escrito no cartão

O formato pode variar entre embarcações e empresas, mas o conteúdo essencial inclui sempre:

InformaçãoO que significa
Nome e posto Identificação do tripulante e sua função a bordo
Muster station Ponto de reunião de emergência — localização física na embarcação (letra ou número)
Bote/embarcação atribuída A qual bote salva-vidas ou embarcação de socorro o tripulante está designado
Funções de emergência O que o tripulante deve fazer em caso de incêndio, abandono de navio, homem ao mar
Sinais de alarme O que cada alarme sonoro significa: sete apitos curtos e um longo = alarme geral, por exemplo

Esse cartão fica guardado no camarote do tripulante. Em caso de alarme, ele já sabe exatamente o que fazer — sem precisar perguntar para ninguém.

Quando você recebe o cartão

O Cartão de Segurança é entregue logo ao embarcar, na fase inicial de integração a bordo. Esse processo inclui:

  1. Receber o cartão e ler as informações;
  2. Conhecer fisicamente o muster station da embarcação;
  3. Identificar o equipamento de segurança individual — colete, traje de imersão, localização do bote;
  4. Participar de um exercício de mustering nos primeiros dias a bordo.

Esse exercício não é opcional. É exigência da SOLAS. Em navios que operam internacionalmente, exercícios periódicos são obrigatórios pelo menos uma vez por mês.

Oficial no passadiço de um navio — ponto de controle e comando em situações de emergência
O passadiço é onde o Comandante coordena a resposta em emergências — e cada tripulante já sabe seu papel antes mesmo de a embarcação partir.

Como isso se aprende antes de embarcar

Os cursos de formação de aquaviários — CFAQ e CAAQ, oferecidos gratuitamente pela Marinha do Brasil via PREPOM — incluem instrução sobre segurança marítima como parte da grade obrigatória.

Entre os tópicos estudados estão:

Quando você embarca pela primeira vez e recebe seu Cartão de Segurança, o conteúdo não é novidade. Você já estudou tudo isso durante o curso.

Curiosidade: a sigla SOLAS vem do inglês Safety of Life at Sea. A primeira versão da convenção foi assinada em 1914, um ano depois do naufrágio do Titanic — que mostrou ao mundo a necessidade de regulamentação internacional de segurança marítima.

A diferença entre o Cartão de Segurança e outros documentos

É comum confundir o Cartão de Tripulação de Segurança com outros documentos do aquaviário. A distinção é simples:

DocumentoO que é
Cartão de Tripulação de Segurança Documento de emergência entregue a bordo. Define funções em situações de risco.
Caderneta de Inscrição e Registro (CIR) Documento pessoal do aquaviário, emitido pela Marinha do Brasil. Equivale à CTPS para o trabalhador embarcado — registra habilitações e embarques.
Certificados de habilitação Documentos que comprovam a conclusão dos cursos (CFAQ, CAAQ, cursos de progressão). São exigidos pelas empresas no processo de contratação.

Os três existem em paralelo. O Cartão de Segurança é o único que você recebe diretamente da embarcação — os outros são emitidos pela autoridade marítima e acompanham o profissional ao longo de toda a carreira.

Por que entender isso antes do curso faz diferença

Quem chega ao CFAQ ou CAAQ já com noção de como funciona a segurança a bordo aproveita melhor o conteúdo do curso. Não fica se perguntando "para que serve isso?" — entende que cada procedimento existe para situações reais que podem acontecer em qualquer embarque.

O mar exige responsabilidade coletiva. O Cartão de Segurança é o instrumento que transforma essa responsabilidade em algo concreto e individual: você sabe o que fazer, porque está escrito — e porque você praticou.

Entenda o processo de formação: CFAQ — Moço de Convés ou Moço de Máquinas.

Veja como é a rotina real a bordo: Como é um navio offshore por dentro.

Quer entender a carreira do começo ao fim?

O guia gratuito do NavegaGuia cobre o processo de formação, os documentos necessários, os cursos e o caminho até o primeiro embarque.

Baixar o Guia Gratuito